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Mercado de Juros

O que são Juros?

Os juros são o preço do dinheiro.

A existência dos juros está a ligada a um conceito econômico chamado de preferência temporal.

Preferência Temporal

Qual seria a sua escolha entre:

  • Receber R$100,00 agora; ou
  • Receber R$100,00 daqui a um ano.

Quando confrontados entre a escolha de receber um bem imediatamente ou receber o mesmo bem no futuro, os seres humanos optam pela primeira opção.

Há um mecanismo psicológico em nós que avalia bens disponíveis no presente como sendo mais valiosos do que os mesmos bens disponíveis no futuro. Isso pode ter várias explicações, entre elas a imprevisibilidade que temos a respeito do futuro.

Assim, é razoável que uma pessoa, ao sacrificar a posse de um bem no presente para obtê-la somente em data futura, exija alguma compensação em troca do seu sacrifício.

Qual seria sua escolha entre:

  • Receber R$100,00 agora; ou
  • Receber R$120,00 daqui a um ano.

O interessante é que nem todas as pessoas pensam da mesma maneira. Algumas pessoas, mesmo sabendo da possibilidade de obterem ganhos maiores no futuro, preferem os bens presentes. Esse tipo de pessoa tem alta preferência temporal.

Já outras pessoas não se importam em sacrificar um pouco do seu tempo e optam por receber mais bens no futuro. Esse tipo de pessoa tem baixa preferencia temporal.

Assim, em troca de não consumir seu dinheiro agora, a pessoa que faz um empréstimo espera receber algum tipo de recompensa pelo seu sacrifício, cobrando um preço sobre o dinheiro emprestado, chamado de juro.

Juros e Poupança

Quando alguém pega dinheiro emprestado é preciso que, antes, outra pessoa tenha deixado de gastar esse dinheiro.

Quanto mais as pessoas estiverem poupando, mais dinheiro para ser emprestado estará disponível. Quanto mais as pessoas estiverem consumindo e deixarem de poupar, mais escasso será o dinheiro disponível para outras coisas.

O dinheiro segue a lei da oferta e da demanda como qualquer outro bem ou serviço, ou seja:

  • Quanto maior a oferta, menor o preço; e
  • Quanto menor a oferta, maior o preço.

Assim, em uma sociedade onde há uma predominância de poupadores, haverá maior oferta de dinheiro e os juros cobrados sobre empréstimos terão uma tendência de se reduzirem.

Por que isso é relevante?

Taxa Natural de Juros

Juros e o Empreendedor

Quando um empreendedor avalia a concepção de um negócio, precisa levar em consideração se os recursos que ele precisará estarão disponíveis.

Quando a sociedade tem preferência pelo consumo em detrimento da poupança, resultado da sua alta preferência temporal, poucos recursos como mão de obra e bens industriais, por exemplo, estão disponíveis para serem adquiridos e utilizados em outras atividades.

Com pouca oferta, esses recursos ficam mais caros. No entanto, como as pessoas não estão poupando, a disponibilidade de dinheiro para que o empreendedor possar arcar com seus custos enquanto seu projeto não rende lucros também está baixa.

A baixa disponibilidade de dinheiro aumenta os juros cobrados pelos empréstimos e, colocando os custos no seu planejamento, o empreendedor conclui que o seu projeto não tem condições de ser executado e o abandona.

Assim, em uma sociedade onde há pouca disponibilidade de recursos, há pouco incentivo para que empreendedores se arrisquem implementando indústrias e métodos que exijam grande quantidade de capital (que normalmente são aquelas mais tecnologicamente avançadas e mais eficientes) e o desenvolvimento da sociedade acaba ficando limitado.

Pode-se dizer que os juros atuam como um sinal que a sociedade entrega para os empreendedores a respeito do que é viável de ser feito em relação aos recursos disponíveis.

Definição

Teoricamente, em um mercado livre, a taxa de juros (o preço do dinheiro) resultaria de um equilíbrio entre a demanda e a oferta por dinheiro, resultado do nível de poupança e disponibilidade de recursos para investimento e da absorção desses recursos pelos empreendedores.

Essa taxa, que propicia o equilíbrio natural, é chamada de taxa de juros natural.

É interessante ter em mente que, você sendo um empreendedor, só verá sentido em realizar um empreendimento se for capaz de gerar um rendimento acima da taxa de juros natural. Do contrário, é mais fácil ficar em casa e emprestar o seu dinheiro.

Taxa de Juros Neutra

Há economistas que defendem que, deixado ao seu bel prazer, o mercado se tornará ineficiente, gerando uma má utilização dos recursos disponíveis e desemprego em excesso.

Entre outras justificativas por trás dessa teoria, estariam o fato do nível de poupança ser resultado apenas da faixa de rendimento das pessoas e da tendência de que possa haver uma acumulação injsutificável — uma acumulação de dinheiro com o único objetivo de acumular mais dinheiro, sem realizar investimentos ou empreendimentos (o que implicaria em dinheiro sendo retirado de circulação).

Essas tendências "indesejáveis" das pessoas resultariam em uma taxa de juros ineficiente que impediria o correto desenvolvimento econômico.

Defende-se, então, que o governo interfira, manipulando o mercado de forma a atingir a taxa de juros que geraria o equilíbrio perfeito entre:

  • Pressões inflacionárias: oriundas de uma taxa de juros baixa e um excesso de oferta de dinheiro estimulando o consumo acima da capacidade da economia de suprir a oferta; e
  • Desaquecimento econômico: falta de estímulo para o crescimento dos negócios, geração de emprego etc. resultando em ociosidade dos meios de produção.

A taxa de juros que, teoricamente, seria responsável por prover esse equilíbrio, objetivo da interferência governamental, é chamada de taxa de juros neutra.

Juros e os Ciclos Econômicos

Os ciclos econômicos são períodos de expansão e contração da economia que ocorrem ao longo do tempo.

Há diversas teorias econômicas que tentam explicar esse fenomeno.

Uma delas, a teoria dos ciclos da escola austríaca, aponta que, ao influenciar a taxa de juros e tornar o crédito barato, o governo acaba mandando um sinal errado para os agentes econômicos, que iniciam projetos (iniciando o ciclo de expansão) que no futuro se mostrarão inviáveis e terão de ser terminados (gerando a contração).

Por exemplo, ao reduzir a taxa de juros para patamares abaixo do equilíbrio natural entre a poupança e a demanda por recursos, o governo envia um sinal de que há dinheiro e recursos disponíveis a um preço baixo.

Projetos que antes eram inviáveis devido ao seu custo passam a ser considerados viáveis e são iniciados. Ocorre, então, um aumento da demanda por recursos e financiamento sem que tenha realmente ocorrido aumento na oferta desses itens.

Isso gerará um aumento do preço dos recursos demandandos pelos empreendedores e os empreendimentos se tornam inviáveis. Para evitar a inevitável contração econômica que a falência desses empreendimentos irá gerar, só haverá uma opção: baixar ainda mais os juros e aumentar a disponbilidade de crédito.

No entanto, cedo ou tarde a realidade se mostrará mais forte e os agentes serão obrigados a reconhecer a inviabilidade de certos projetos. Isso resultará em declarações de falência, calotes nos empréstimos, demissões e gastos disperdiçados, ou seja, riqueza será distruída.

Essa correção gera um encolhimento da economia, dando início ao ciclo de contração, chamado de recessão.

Juros e o Mercado Financeiro

Os investidores também utilizam os juros como uma maneira de avaliar a viabilidade de seus investimentos e ajudar na tomada de decisão.

A partir de uma taxa de juros de referência, considerada como a que remunera o investimento de menor risco, também chamada de taxa de custo de oportunidade, os investidores comparam outros investimentos e precificam cada um de acordo com o risco e o retorno percebido.

A taxa utilizada como referência pelo mercado financeiro é a taxa SELIC, que também é a taxa manipulada pelo governo para obter a taxa natural.

No entanto, como os agentes do mercado financeiro raciocinam sempre com as condições futuras, o comum é empregar-se as taxas de juros negociadas em contratos futuros de DI (veja o artigo sobre o mercado interbancário).

Estímulo a Especulação

Uma das consequências da queda forçada dos juros pelo Governo na tentativa de "aquecer a economia" é que os juros se tornam tão baixos que investimentos de alto risco passam a ser vantajosos na visão dos investidores.

Essa visão distorcida gera um fluxo de dinheiro para mercados especulativos, tais como a Bolsa de Valores, onde ocorre uma valorização desproporcional das ações das empresas e outros ativos financeiros.

Gera-se um clima de excessiva confiança que intensifica ainda mais o ciclo econômico de expansão, e que pode resultar em uma bolha (quando o valor dos ativos no mercado financeiro não corresponde a realidade).

Estrutura a Termo de Taxa Juros (ETTJ)

A Estrutura a Termo de Taxa de Juros é uma maneira de se tentar obter valores de taxas de juros para um período cuja taxa é desconhecida mas se encontra entre dois períodos com taxas conhecidas (chamados de vértices).

Por exemplo, em uma situação onde você conheça a taxa de juros para um título com vencimento em três anos e um título com vencimento em cinco anos, como saber qual será a taxa para um título com vencimento em quatro anos?

Vencimento Taxa
3 anos 10,00%
4 anos ?
5 anos 11,20%

Como saber a taxa para o título com vencimento em 4 anos?

A lógica por trás da teoria da ETTJ nos diz que a taxa de juros para o título de quatro anos está ímplicita nas outras duas taxas e que, a partir de uma fórmula matemática que envolve os valores conhecidos, podemos chegar a ela.

Análise da ETTJ

Um uso comum da ETTJ é a obtenção da curva dos juros pagos pelos títulos públicos federais.

Ao se plotar em um gráfico a ETTJ desses títulos, obtêm-se uma curva que pode ser indicativa de algumas tendências econômicas.

Curva Positiva

Em situações normais, espera-se que títulos cujo vencimento se dê em prazos mais longos, paguem juros (rendimentos) maiores do que aqueles cujo vencimento seja mais próximo.

Quanto mais tempo o investidor fica sem o seu dinheiro, mais exposto aos riscos e eventos imprevisíveis ele estará, portanto, é natural que ele exija um prêmio maior.

Por isso, ao plotarmos uma ETTJ, o normal é que ela tenha um curva ascendente, com os títulos de vencimento mais próximo oferecendo taxas menores do que aqueles de vencimento mais longo (Figura 1).

Taxa (% ao ano) DU (dias úteis) 0 100 200 400 21,00 19,50 18,00 16,50 15,00

Figura 1 - ETTJ positiva.

Curva Neutra ou Negativa

Se a ETTJ resulta em uma curva neutra (taxas próximas iguais às taxas distantes) ou descendente (taxas próximas maiores do que taxas distante) há alguma característica que afetou a percepção de risco do investidores, fazendo a curva se alterar.

Taxa (% ao ano) DU (dias úteis) 0 100 200 400 21,00 19,50 18,00 16,50 15,00

Figura 2 - ETTJ neutra.

Taxa (% ao ano) DU (dias úteis) 0 100 200 400 21,00 19,50 18,00 16,50 15,00

Figura 3 - ETTJ negativa.

Quando a curva passa de sua forma positiva para uma forma negativa, diz-se que houve uma inversão da curva de juros, que é basicamente o mesmo que dizer que as taxas de juros com vencimento próximo se tornaram mais altas do que as taxas de vencimento longo.

Por que isso ocorre?

Inversão

Visão dos Investidores

Quando ocorre uma recessão econômica, o governo interfere na taxa de juros reduzindo-a de forma a tentar aumentar o crédito disponível e estimular um crescimento. Isso acaba refletindo nas taxas de rendimento pagas pelos títulos públicos, que ficam menores.

Os investidores sabendo disso, ao vislumbrarem que uma recessão irá ocorrer no futuro, se antecipam às quedas e passam a comprar os títulos de longo prazo enquanto eles ainda estão pagando taxas altas.

Ocorre, então, um aumento da demanda por títulos públicos de longo prazo. O aumento da demanda gera um aumento no preço — em títulos de renda fixa, como os títulos públicos, juros e preço são inversamente proporcionais, isto é, se o preço sobe os juros caem e vice-versa.

Com os preços dos títulos de longo prazo subindo, as taxas caem. Já com os títulos de curto prazo, ocorre o contrário. Há uma queda na demanda por esses títulos, gerando uma redução no preço e um aumento nas taxas.

Assim, uma inversão das taxas de juros pode ser um sinal de que o mercado financeiro prevê uma recessão em breve (Figura 4).

Figura 4 - Taxas de juros dos títulos curto prazo (azul) e de longo prazo (vermelha) dos títulos público americandos. Repare que o cruzamento das taxas antecede as áreas em cinza (períodos de recessão).

Visão dos Empreendedores

Através da política monetária o Banco Central controla a oferta de dinheiro.

A partir do momento em que ele resolve reduzir a expansão da base monetária, ocorre redução da oferta de dinheiro sem que necessariamente haja uma redução na demanda. Fica mais difícil conseguir dinheiro emprestado.

Redução da oferta sem redução na demanda gera aumento de preços, que no caso do dinheiro é representado pelos juros cobrados nos empréstimos.

Com o aumento dos juros, os empreendedores precisam reavaliar seus projetos e começam a perceber que ficou mais caro dar continuidade a eles. Querendo terminá-los antes que as coisas se tornem inviáveis, eles correm atrás de empréstimos de curto prazo.

Ao mesmo tempo, deixam de tomar empréstimos de longo prazo pois já não tem mais certeza se serão capazes de honrá-los no futuro.

Ocorre então:

  • Aumento na demanda por empréstimos de curto prazo, elevando o preço (juros) do dinheiro de curto prazo; e
  • Redução na demanda por empréstimos de longo prazo, reduzindo os juros de longo prazo.

Oferta e Demanda

Repare que a visão dos investidores é a visão da oferta de dinheiro e a visão dos empreendedores a visão da demanda.

Investir nada mais é do que emprestar seu dinheiro para alguém e ser pago no futuro com algum juro, que no caso dos investimentos é chamado de taxa de rendimento.

Em períodos que antecedem uma recessão, há um aumento da demanda por empréstimos de curto prazo pelos empreendedores e uma redução na demanda pelos de longo prazo enquanto, os investidores (quem empresta o dinheiro), estão querendo emprestar mais a longo prazo, aumentado a oferta, e reduzindo seus empréstimos de curto prazo, reduzindo a oferta.

Teoricamente, todo esse movimento pode ser percebido observando a ETTJ dos títulos públicos, ou comparando as taxas de juros de um título de curto prazo com a de um de longo prazo.

Referências:

FORTUNA, Eduardo. Mercado Financeiro: produtos e serviço. 18 ed. Rio de Janeiro. Qualitymark, 2010.

BERGER, Paulo Lamosa. Mercado de Renda Fixa no Brasil: Ênfase em Títulos Públicos. 1ª ed. Rio de Janeiro. Interciência, 2015.

GARRISON, Roger W. A taxa de juros natural e a taxa de juros neutra. IMB, 2010. Disponível em https://www.mises.org.br/Article.aspx?id=606

ROQUE, Leandro Juros, preferência temporal e ciclos econômicos. IMB, 2009. Disponível em https://www.mises.org.br/Article.aspx?id=552

Última atualização: 2019-06-26