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Cartas da Berkshire: Taxas e o Retorno de Investimentos

Cartas da Berkshire Hathaway

Em 1965, Warren Buffett assumiu o controle de uma empresa chamada Berkshire Hathaway dando início a uma das estratégias de investimento mais bem sucedidas da história.

Hoje, a empresa é uma das mais valiosas do mundo.

A despeito da história de sucesso, outro ponto de especial interesse para entusiastas dos investimentos são as cartas anuais escritas por Warren para seus acionistas.

Por ter especial preocupação em que seus acionistas entendessem os negócios da empresa e suas iniciativas como presidente da mesma, as cartas são ricas em detalhes e, muitas vezes, continham verdadeiras aulas sobre aspectos corporativos

A intenção desta série de artigos é trazer alguns trechos dessas cartas que podem ser valiosos na educação financeira do pequeno investidor¹.

Taxas e o Retorno de Investimentos

Trecho da carta de 23 de fevereiro de 2006:

Como Minimizar o Retorno de Investimentos

Tem sido fácil para a Berkshire e outros acionistas americanos prosperarem ao longo do tempo. Dando um verdadeiro exemplo de longo prazo, entre 31 de dezembro de 1899 e 31 de dezembro de 1999, o índice Dow Jones subiu de 66 para 11.497 (adivinhe qual o crescimento anual necessário para produzir esse resultado; a resposta surpreendente será dada ao final desta seção). Esse crescimento enorme ocorreu por uma razão simples: ao longo do século, as empresas americanas tiveram excelente resultado e os investidores surfaram essa onda de prosperidade. Os negócios continuam indo bem. Mas, agora, os acionistas, através de uma série de feridas auto-provocadas, estão cortando os retornos que terão em seus investimentos.

A explicação de como isso está ocorrendo começa com uma verdade fundamental: com algumas poucas exceções, o máximo que os donos de empresas em conjunto conseguirão obter entre hoje e o dia do julgamento final será o que as suas empresas em conjunto conseguirão ganhar.

É verdade, ao comprar e vender de forma esperta ou sortuda, o investidor A pode acabar obtendo um pedaço maior da torta às custas do investidor B. E sim, todos os investidores se sentem mais ricos quando o preço das ações dispara. No entanto, um dono só pode sair do seu negócio se houver alguém para assumir o seu lugar. Se um investidor vende caro, outro investidor deve necessariamente comprar caro. Para os donos, em conjunto, não há mágica — sem chuvas de dinheiro do espaço sideral — que os permitirá extrair riqueza de suas firmas além daquela criada pelas próprias firmas.

De fato, os donos precisam receber menos do que as suas firmas conseguem ganhar devido aos custos. E este é o meu ponto: esses custos estão ocorrendo em montantes que levarão os acionistas a ganharam muito menos do que têm ganhado historicamente.

Para entender como essa taxa cresceu, imagine, por um momento, que apenas uma família é e sempre será a dona de todas as corporações americanas. Vamos chamar essa família de Gotrocks. Após pagar os impostos sobre os dividendos, essa família — geração após geração — fica mais rica na proporção de ganhos das suas firmas. Hoje, esse valor é de cerca de US$700 bilhões ao ano. Naturalmente, a família gasta alguns desses dólares. No entanto, a parte poupada continua rendendo continuamente, beneficiando os Gotrocks. Na casa dos Gotrocks, todos ficam mais ricos no mesmo ritmo e tudo gira em harmonia.

Vamos supor, agora, que alguns ajudantes bons de lábia queiram persuadir cada um dos membros da família a tentar ganhar mais do que seus parentes através da negociação de seus ativos. Os ajudantes — em troca de uma taxa, é claro — prestativamente concordam em coordenar essas transações. Os Gotrocks ainda são donos de toda a america corporativa; as compras e vendas apenas modificam quem possui o que. Portanto, os ganhos da família diminuem, sendo iguais aos ganhos das empresas americanas menos as taxas pagas. Quanto mais os membros da família operarem, menor será o seu pedaço da torta e maior será o pedaço recebido pelos ajudantes. Esse detalhe não passa despercebido pelos corretores-ajudantes: movimentação é sua amiga e, de várias formas, eles a incentivam.

Após um tempo, a maior parte da família percebe que eles não estão se dando tão bem nese jogo de "ganhe do seu irmão". Surge um novo grupo de ajudantes. Esses recém-chegados explicam a cada membro dos Gotrocks que, sozinhos, eles nunca conseguirão superarem o restante da família. A cura sugerida: "Contrate um gestor — sim, nós — e deixe o trabalho ser feito pelos profissionais". Esses gestores-ajudantes continuam a utilizar os corretores-ajudantes para realizar as operações; os gestores podem, até mesmo, aumentarem seu ritmo de operações a fim de permitir aos corretores prosperarem ainda mais. Agora, um grande pedaço da torta vai para as duas classes de ajudantes.

O descontentamento da família aumenta. Cada um dos seus membros está empregando um profissional. No entanto, de maneira geral, os resultados do grupo pioraram. A solução? Mais ajuda, é claro.

A ajuda chega na forma de planejadores financeiros e consultores institucionais, que se propõem a auxiliar os Gotrocks a selecionar os gestores-ajudantes. A família agradece pela ajuda. Até o momento, seus membros sabem que eles não conseguem escolher nem as melhores ações e nem os melhores escolhedores de ações. Por que, alguém pode se perguntar, eles deveriam esperar ter sucesso em escolher um bom consultor? Mas esse questionamento não ocorre aos Gotrocks e, é claro, os consultores-ajudantes não os chamam a atenção para essa questão.

Os Gotrocks, agora sustentando três classes de ajudantes caros, veem que seus resultados estão cada vez piores e entram em desespero. Mas, justo quando a esperança parecia perdida, surge um novo grupo — vamos chamá-los de hyper-ajudantes. Esses indivíduos amigáveis explicam aos Gotrocks que seus resultados insatisfatórios estão ocorrendo porque os ajudantes atuais — corretores, gestores e consultores — não estão realmente motivados. "O que," os novos ajudantes perguntam, "você pode esperar desse grupo de zumbis?".

Os recém-chegados propõem uma solução cuja simplicidade é de tirar o fôlego: paguem mais dinheiro. Esbanjando auto-confiança, os hyper-ajudantes afirmam que enormes pagamentos condicionais — além de taxas fixas — são o que cada membro da família precisa gastar para conseguir ganhar dos seus parentes.

Os membros da família mais atentos observam que os hyper-ajudantes são, na verdade, gestores-ajudantes usando novos uniformes com nomes sexy do tipo FUNDO DE HEDGE ou PRIVATE EQUITY². Apesar disso, os novos ajudantes garantem aos Gotrocks que a mudança de vestimenta é super importante, dando aos seus utilizadores poderes mágicos de forma semelhante ao que acontecia com Clark Kent quando este colocava sua roupa de super-homem. Tranqulizados por essa explicação, a família decide pagar os valores pedidos.

E aqui é onde estamos atualmente: uma porção recorde dos ganhos que deveriam ir para os acionistas e sócios das empresas — se eles simplesmente permanecessem sentados em suas cadeiras — está indo para as mãos de um exército cada vez maior de ajudantes. Particularmente caro é a onda recente de acordos onde os ajudantes recebem uma grande parte dos ganhos quando eles são espertos ou sortudos e deixam a família com todas as perdas — e grandes taxas fixas a serem pagas — quando os ajudantes são burros ou azarados.

Um número suficiente de acordos desse tipo — cara, o ajudante leva a maior parte dos ganhos; coroa, os Gotrocks perdem e pagam bem pelo privilégio de fazê-lo — faz com que seja mais apropriado chamar a família de Hadrocks³.

Há muito tempo, Sir Isaac Newton nos deu as três leis do movimento, um trabalho de gênio. Mas os talentos de Sir Isaac não incluiam investimentos: ele perdeu um bom dinheiro na bolha do mar do sul, posteriormente se explicando: "Eu consigo calcular o movimento das estrelas, mas não a loucura dos homens". Se ele não tivesse ficado tão traumatizado com sua perda, Sir Isaac poderia muito bem ter descobeto a quarta lei: para os investidores como um todo, o retorno diminui à medida que aumenta o movimento.

****Aqui está a resposta para a pergunta proposta no começo desta seção: para ser bem específico, o Dow cresceu de 65,73 para 11.497,12 no século 20, e isso equivale a um ganho de 5,3% ao ano (investidores também receberiam os dividendos). Para obter uma taxa semelhante de retorno no século 21, o Dow terá de subir até precisos 2.011.011,23 até 31 de dezembro de 2099. Eu estou disposto a aceitar 2.000.000; seis anos deste século se passaram e o Dow não ganhou nada.

Taxas e o Investidor

Nesse trecho há três aspectos que considero interessantes para o pequeno investidor:

  • A riqueza é gerada pelas empresas e não por intermediários ou pelo governo;
  • O interesse do sistema é que você opere. Se você ganha ou perde, tanto faz; e
  • A busca incessante por rendimentos acaba reduzindo a performance de longo prazo;

Empresas e a Riqueza

Um ponto que muitos pequenos investidores têm dificuldade em compreender quando iniciam seus investimentos é que riqueza não surge do nada. É preciso que ela seja produzida de alguma maneira.

Os responsáveis por essa tarefa são os empreendedores e as empresas. Através de novas tecnologias e métodos mais eficientes, as empresas não só geram riqueza, como cada vez geram mais riqueza ao longo do tempo.

Essa produção não é tão simples de se medir. Uma forma amplamente utilizada é através do Produto Interno Bruto (PIB) (Figura 1):

Figura 1 - Gráfico do PIB Mundial. Fonte: www.worldbank.org

Observe como, ao longo do tempo, o PIB mundial tem aumentado.

O trabalho do investidor é, basicamente, comprar um pedaço dessas empresas, sentar e esperar receber a sua parte do bolo. Parece simples de aplicar na teoria, mas, na prática, a maioria das pessoas não consegue executar essa "complexa" técnica de investimento.

No Brasil, é ainda mais díficil às pessoas aceitarem e entenderem o papel das empresas na geração de riqueza.

Mesmo com a já amplamente difundida mentalidade anti-capitalista de nosso país, a mídia e o mercado financeiro ainda bombardeiam constantemente a sociedade com a ideia de que no Brasil os juros são muito elevados e, comparando o desempenho do IBOVESPA com índices de renda fixa, apontam como a Bolsa sempre perde no longo prazo e como o investidor deve "se movimentar" caso queira obter resultados adequados.

Não é o intuito deste artigo discutir esse ponto, mas apenas destacar, conforme comenta Buffett, que não existe mágica. O que as empresas gerarem de riqueza será o que os seus donos receberão.

Ao comprar uma ação, você se torna dono de uma pequena parte da empresa. Não será possível ter a resiliência e atitude psicológica de investidor de longo prazo sem ter essa ideia em mente.

O Conflito de Interesses

Todos os intermediários — corretoras, Bolsa de Valores, governo etc. — ganham dinheiro se você operar. Se você ganha ou perde é indiferente para a lucratividade deles.

Dessa forma, a propaganda exercida pelos intermediários busca incentivar o maior número de operações possível. Você dificilmente verá alguma corretora incentivando que algum investidor compre uma empresa e mantenha ela pelo resto da vida. O que você verá serão preços alvo, calls de compra e venda, promoções para daytrade e todo tipo de incentivo às operações constantes.

Investidores conscientes dos fundamentos econômicos e do impacto dos custos nos resultados costumam realizar poucas operações, pois sabem que é muito difícil, senão impossível, obter retornos expressivamente maiores do que a média tentando acertar mais do que os outros.

Há portanto, um certo conflito de interesses entre os prestadores de serviços e o investidor.

Buffett aponta como a taxa de performance dos fundos é vendida como uma maneira de "alinhar os interesses". No entanto, essa taxa faz com que o gestor dos ativos só participe da parte boa. Quando o fundo têm resultados negativos, é só o investidor que perde, ainda tendo de arcar com as taxas de administração fixas.

A Busca por Rendimento

Quando o investidor perde de vista os fatores fundamentais da geração de riqueza, ele se foca apenas no fator rendimento.

Em busca de maiores rendimentos, ele costuma aumentar demasiadamente seus custos — ou pior, seu risco —, gerando retornos consideravelmente inferiores no longo prazo quando comparado às estratégias mais passivas.

Outra alternativa é delegar a função para um profissional, tal qual um gestor de fundos, na esperança de que ele alcance a performance acima da média. No entanto, da mesma forma que um investidor que foca apenas no preço da ação e perde de vista os fundamentos da empresa costuma ter dificuldades no longo prazo, o investidor que analisa fundos de investimento apenas pelo critério de rentabilidade também acaba se decepcionando.

Por mais genial que seja o gestor do fundo, é impossível que ele mantenha um histórico de performance positiva o tempo todo. Haverá momentos em que a estratégia parecerá dar errado ou em que será necessário rever os investimentos. Se o investidor não compreende a estratégia do fundo e não confia na habilidade do gestor, tendo focado sua análise apenas no rendimento histórico, ao primeiro sinal de piora, acabará saindo de um investimento que poderia muito bem ter lhe deixado rico ao longo dos anos.

Esse entra e sai, semelhante ao comprar na alta e vender na baixa, acaba fazendo com que o investidor de fundos tenha performance significativamente pior do que os fundos onde investe para um determinado período de tempo.

Notas:

¹As cartas estão disponíveis no site da empresa.

²Fundo de capital privado, ou fundo de investimento em participações.

³Jogo de palavras com a expressão *Got* (tem, em português) e *Had* (tinha, em português).

Última atualização: 2020-02-24